|
|
Cinco de Julho de 1922 é a data histórica do Tenentismo e do levante da guarnição do Forte de Copacabana, homenagem prestada à epopéia dos 18 do Forte. Você, também, pode conferir as outras informações contidas nas páginas sobre o Forte de Copacabana e sobre o Tenente Siqueira Campos (Siqueira Campos em Paracatu), inclusive as
páginas com os interrogatórios oficiais dos dois sobreviventes da Revolta: os tenentes
Eduardo Gomes e
Siqueira Campos.
Abaixo reproduzimos trechos de textos de jornais da época que descrevem
detalhadamente os fatos que marcaram, principalmente, o dia
Cinco de Julho de 1922 e os dias subsequentes.
A Revolta Do Forte De Copacabana E O Movimento Da Escola Militar
Pronunciamento Militar
O Governo Informa A Rendição Discrecionária da Escola Militar E Do 15o
Regimento De Cavalaria Da Villa Militar
O Estado De Sítio Foi Ontem Mesmo Sancionado
O Forte De Copacabana É Intimado Pelas Forças Legaes A Render-se
Incondicionalmente
O Que Foi O Encontro De Tropas Em Deodoro
Algumas Granadas Caem Sobre O Quartel General Fazendo Vítimas ( O Brasil -
1922)
"Desde a madrugada de ontem que entrou a cidade numa situação inquieta,
com o pronunciamento militar iniciado pelo
forte de Copacabana, que ficou sob a ação revolucionária
do capitão Euclides Fonseca, logo seguido do levante na
Vila Deodoro. As primeiras notícias eram desorientadas, e muitas
vezes contraditórias, o que não permitiu se fizesse um juízo
seguro dos acontecimentos que se desenrolaram. O noticiário refletiu, como
não podia deixar de refletir, esse 'brouhahada', levando um pouco de
confusão aos espíritos inespertos. (...)
|
Cerca de 1 hora da madrugada o general Bonifácio Costa, com o seu
ajudante de ordens e o capitão Silva Barbosa, de artilharia,
aproximou-se da porta das armas da fortaleza e anunciou-se ao oficial de
dia, que foi chamado. Este, comparecendo, foi informado pelo general
Costa que ia para falar com o capitão Euclides Fonseca
sobre um caso oficial e urgente. |
|
O capitão Euclides, que estava recolhido no seu aposento, mandou que
o oficial de dia introduzisse o general e o capitão na sala de armas, pois
recebel-os-ia logo. Poucos momentos após, o capitão Euclides aparecia
na referida sala e recebia os dois oficiais, tendo o general Costa lhe
comunicado a natureza de sua missão: receber a fortaleza e entregar o
comando da mesma ao oficial que os acompanhava. O capitão Euclides
Fonseca declarou estranhar tal procedimento, acrescentando que não
entregaria o comando naquele momento.
Trocaram-se algumas palavras entre os dois interlocutores, até que o
capitão Euclides declarou ao general Bonifácio Costa que se
considerasse prisioneiro, bem como o capitão referido e o seu ajudante de
ordens e ordenanças. Ato contínuo, o capitão Euclides designou um
oficial para olhar pelos oficiais presos, sendo-lhes indicado aposentos.
Foi, então, 1 e 35 da manhã, que a fortaleza fez o primeiro disparo, de
pólvora seca, sinal, ao que parece, convencional, para os outros
elementos sublevados. Foram logo distribuídas vedetas para a
avenida
Atlântica e
rua Nossa
Senhora de Copacabana e, ao nascer do dia foi
iniciado o serviço de abertura de trincheiras, trabalho que às 11 horas
da manhã estava dado por terminado. O fosso aberto ocupa a extensão que
fica em frente à
rua
Copacabana e ao meio dia já se achava guarnecido. (...)
O número de praças inferiores e oficiais sublevados atinge a 359 homens,
incluindo o pessoal que estava no
forte do Leme, e que pouco antes das 10 horas fora chamado e
mandado recolher à
fortaleza de Copacabana, aderindo, assim, ao movimento. Antes,
porém, de deixarem o
forte do Leme retiraram as culatras das peças. No
forte de Copacabana há munição de bocca para um mês. (...)"
O Brasil, 6 de julho de 1922
A Escola De Guerra Rendeu-se
O Levante Na Villa Militar Foi Dominado Esperava-se A Rendição Do
Forte De Copacabana
Foi Decretado O Estado De Sítio Por 30 Horas ( A Pátria )
"Foi às 21 horas de ante-ontem que o governo começou a receber informes
sobre o projetado movimento de revolta na Vila Militar. Recebendo dos
seus agentes todas as comunicações sobre o que ocorria, o governo
imediatamente concertava as medidas de repressão. Assim que foi ouvido o
primeiro disparo no
Forte de Copacabana, estourou na Vila Militar a
insubordinação de um pelotão do 1o Regimento. Estava este pelotão
com alguma munição. A outra parte do regimento que se manteve com a
legalidade, conseguiu sufocar a rebelião.
Conforme informações que temos, das proximidades da Vila Militar,
reina desde ontem ali completa tranquilidade depois da rendição das praças
da Escola Militar e do 1o de Cavalaria. As forças da
Polícia Militar que seguiram para ajudar a dominar a rebelião, já
regressaram para esta Capital, tendo também regressado a 3a companhia de
metralhadoras. Esta força estacionou, depois de descer da Vila
Militar em Cascadura. As novas notícias sobre o
Forte de Copacabana declaram que o chefe dos revoltosos nesta
praça de guerra pediu para parlamentar com o governo, informação esta que
publicamos mais abaixo com os devidos esclarecimentos. (...)
O despertar dos moradores dos lindos bairros atlânticos de Copacabana,
Leme e Ipanema foi, na madrugada de ontem, terrível. As famílias
dispunham-se a abandonar as suas residências apressadamente, na imminência
do forte que estava revoltado, ser bombardeado pelas tropas legais. Desde
as primeiras horas do dia, um inumerável cortejo de todas as
características sociais, em automóveis, bonds, caminhões do
Corpo de Bombeiros e carroças, desfilava pela
rua Barroso, direção a Botafogo, pelo
Tunel Velho.
Os moradores do Leme cujo bairro estava sendo alvejado
pelos 7 ½ do
forte de Copacabana retiravam-se a conselho
da própria autoridade. O forte de cinco a cinco minutos
disparava para a entrada do
Tunel Novo, onde estavam alojadas as tropas do 3o Regimento de
Infantaria. O trânsito ficou, então, interrompido neste trecho.
Os bonds passaram a circular pelo
Tunel Velho, até as 15 horas, quando não mais atingiram o bairro
atlântico, por estar o mesmo sitiado pelas tropas e, na iminência de ser
bombardeado pela esquadra, pela aviação naval e pelas tropas de terra - o
que talvez se dê esta manhà, segundo informações que tivemos. (...)
O Forte de Copacabana, o iniciador da rebelião, hontem, até a
tarde, continuava atirando a esmo. Em certo momento os disparos passaram a
ser feitos em direção do bairro de Copacabana, o que estava
causando prejuizos aos prédios da
Avenida Atlântica. (...)
O governo tendo recebido uma intimação do
forte de Copacabana respondeu a este documento dos revoltosos
com a decisão tomada de que se a guarnição do forte nào se render, dentro
de um determinado prazo de horas, mandará o governo bombardeal-o por
forças de mar e terra, sendo a rendição sem condições. (...)
Ao assinar do decreto de estado de sítio, ontem aprovado pelo Congresso
Nacional, o sr. presidente da República proferiu as seguintes palavras:
- Nunca desejei e nunca pensei ter de assinar um ato como este, mas
agora o faço gostosamente, certo de que estou prestando um serviço à
República e às instituições." A Pátria, 6 de julho de 1922
O Movimento Revolucionário Que Explodiu Nesta Capital
A Legalidade Vitoriosa ( A União )
"Lamentamos o desvario dos espiritos que, por criminosa ambição política,
arrastou homens de responsabilidade como os Srs. Nilo Peçanha e marechal
Hermes à revolução contra o governo constituído do país; limitamo-nos
a nomear alguns fatos do movimento, felizmente dominado pelo governo, que
teve a seu lado as forças armadas e a opinião conservadora do país. (...)
O movimento explodiu quase simultaneamente na Escola Militar do
Realengo e na
fortaleza de Copacabana. Os revoltosos acreditavam que o resto das
forças da guarnição militar aderisse à revolução, mas essas esperanças
felizmente fracassaram. As tropas, em sua grande maioria, conservaram-se
fiéis ao Governo e à legalidade. Aquela Escola, sob o comando do
tenente-coronel Xavier de Brito e tendo como oficiais vários
capitães e tenentes revoltosos que, na noite de 4, iludindo a vigilância
da Polícia Militar conseguiram atingir o Realengo, saiu para
o 1o batalhão de engenharia, certo de ser este o único obstáculo
que encontrariam para chegar ao contato com as tropas da Villa
Militar, supostos também em estado de sublevação.
O 1o batalhão de engenharia, reforçado imediatamente pelo 15o
regimento de cavalaria, repeliu os revoltosos que se instalavam nas
alturas que dominam, pelo lado de oeste, a Villa Militar, e aí
colocando seus canhões, abriram intenso fogo contra os quartéis do 1o
artilharia, 1a brigada de infantaria, Escola de Sargentos etc. A esse
tempo, o general de brigada Ribeiro da Costa, na sua qualidade de
chefe mais graduado da Villa Militar assumiu o comando de todas as
forças e dispôs a defesa. (...)
Na Villa Militar só houve um pequeno movimento subversivo,
imediatamente abafado. Um pelotão, às ordens de um tenente, atirou contra
a sala onde estavam reunidos os oficiais. O capitão da companhia a que
pertencia esse pelotão, de nome Barbosa Monteiro, oficial de
extraordinário valor moral e intelectual, saiu ao encontro dos soldados
sublevados e recebeu uma descarga que o fez tombar morto. O pelotão,
imediatamente cercado pelo resto da companhia, que acudiu, foi, com seu
comandante, feito prisioneiro e desarmado. (...)"
A União, 9 de julho de 1922
Copacabana Prestes A Capitular! ( O Combate )
"As forças que estão sitiando o
forte de Copacabana, sob o comando do general Menna Barreto,
tiveram ordem do governo para enviarem um 'ultimatum' à fortaleza,
intimando-a a render-se dentro de uma hora. Em caso contrário será
bombardeada por forças legais de terra e navios de guerra."
O Combate, 5 de julho de 1922
"Por ordem do governo, a fortaleza de Santa Cruz e o forte de Imbuhy
desde ontem às 6 ½ até hoje pela manhã, que estão fazendo disparos contra
o
forte de Copacabana. (...)
O Diário Oficial publicou a seguinte nota: - Tendo se revoltado na
madrugada de ontem a guarnição do
forte de Copacabana, que se achava sob o comando do capitão
Euclides Hermes da Fonseca, e havendo aderido a esse movimento a
Escola Militar, o sr. Presidente da República adotou prontas e
energicas providências, fazendo cercar imediatamente aquela fortaleza e
ordenando que as forças legais fossem ao encontro da Escola Militar.
Entrando em contato com a Escola, as forças legais travaram com esta um
tiroteio conseguindo em pouco tempo dominar inteiramente os sediciosos,
que se renderam à discreção do governo, sendo todos presos e desarmados e
conduzidos para a Capital. Todos as demais forças da guarnição estão com o
governo, estando a cidade em completa calma. (...)
O Sr. Presidente da República, no momento em que assinava a decretação do
estado de sítio, recebeu uma comunicação telefônica do Ministério da
Guerra, anunciando que os revoltosos do
forte de Copacabana acabavam de solicitar a admissão de um
parlamentar, ao que o Sr. Presidente da República se negou terminantemente,
adiantando mais, que só aceitaria a rendição discrecionária. (...)
| |
Hoje pela manhã sob a serenidade do azul do céu passou, com destino a
Copacabana, uma esquadrilha de aeroplanos 'Breguet' a fim de
cooperar com as forças legais no assalto ao forte. É bem possível que as
possantes máquinas do novo poder aéreo tenham entrado em ação com as suas
bombas de assalto. (...)
|
O governo intimou o
forte de Copacabana a, dentro de um certo número de
horas, render-se incondicionalmente, sem o que, bombardeal-o-á por forças
de mar e terra." O Combate, 6 de julho de 1922
"Segundo declarações dos soldados presos, o
tenente
Siqueira Campos e seus colegas resolveram enfrentar peito a
peito os legalistas, não querendo bombardear a cidade, como tencionavam
pela manhã enquanto aguardavam a resposta do governo sobre as condições de
rendição da praça. Rasgaram então a bandeira do
Forte, distribuindo um pedaço a cada praça, colocando-o no peito,
desceram do
forte, para virem atacar os 2000 legalistas que os sitiavam."
O Combate, 7 de julho de 1922
A Situação
Os Sucessos De Hoje
A Rendição Do Forte De Copacabana ( A Noite )
"A cidade acordou tranquilla, tendo adormecido na sciencia de que o
governo estava resolvido a fazer emmudecer, e render-se, o
forte de
Copacabana. Parte do commercio central abriu suas portas, num
começo de normalisação. Por volta das 8 horas, porém, senào precisamente
entre ás 7 ½ horas e ás 8, a população ficou um pouco desorientada com a
successão de uma meia duzia de fortes disparos, que abalavam os moradores.
Os habitantes das vizinhanças, do mar notaram o movimento de navios de
nossa esquadra que se dirigiam para o
forte de Copacabana, regressando depois ao porto, para novamente
tomar aquelle rumo, chegando mesmo o S. Paulo a transpor a barra.
Por volta das 10 horas foram vistos alguns apparelhos de
aviação voar na direcção do
forte de
Copacabana, e logo depois se soube officialmente da rendição
do
forte, noticia esta que circulando, celere, por toda a cidade a
attingindo, logo, todos os bairros, tranquilisou a familia carioca. Mas os
suburbios, desde hontem á noite se achava relativamente tranquillos, á
vista da retirada das forças, que protegiam a linha ferrea. E o
Cattete, depois das 10 horas da manhã, ficou tambem desguarnecido,
o que produziu immediatamente uma impressão de que a cidade retomava de
certo a sua normalidade completa. (...)
As autoridades militares, pela manhã, conseguiram, após o ataque que foi
dirigido contra o
forte de
Copacabana, communicar-se com o respectivo commandante, capitão
Euclydes da Fonseca, intimando-o a entregar-se, pois a sua resistencia
seria inutil, uma vez que todas as forças, quer do exercito, quer da
Marinha, estavam ao lado do Governo.
O capitão Euclydes, ante a evidencia desses factos, declarou que se
entregaria; mas com a condição de ser respeitada a vida daquelles que
com elle se achavam na
fortaleza. Promettido ser atendido nesta imposição,
o forte de
Copacabana entregou-se ás forças legaes, sendo o capitão
Euclydes preso, assim como os 18 homens que constituiam a guarnição do
forte, pois as demais ja o haviam abandonado, no correr da noite. (...)"
A Noite, 6 de julho de 1922
A Revolta Do Forte De Copacabana E O Movimento Da Escola Militar
O Congresso Concede A Medida Do Sitio, Pedido Com Urgencia, Pelo Governo
Varias Prisões
Mortos E Feridos ( Correio da Manhã )
"Os graves sucessos da noite anterior foram o prenuncio de um movimento
revolucionario que estalou, pela madrugada de hontem e que deixou a
cidade grandemente alarmada.
Conforme é sabido, o movimento teve origem na Escola Militar, e as
primeiras noticias para aqui transmittidas davam como à frente da tropa
revolucionaria o marechal Hermes. E, durante toda a noite, os boatos
mais desencontrados corriam, deixando toda gente apprehensiva deante dos
acontecimentos que se desenrolariam. O que se passou durante o dia no
Cattete e no quartel-general, a imprensa relatou minuciosamente e a
noticia do levante soube-se depois pela intercepção do Centro Telephonico
de diversas communicações para corpos da Villa, marcando o movimento para
determinada hora.
De posse de taes revelações, facil foi ao governo organizar o seu plano de
resistencia, entendendo-se antes com o general Carneiro da Fontoura e
com o titular da pasta da Guerra.
As notícias sobre os acontecimentos chegaram aqui desencontradas, sem que
se soubesse ao certo o que de positivo havia ocorrido.
Na cidade conhecia-se do plano apenas a adhesão em definitivo do
forte de Copacabana, de onde, de quando em quando, se ouviam
disparos, que mais se accentuaram á tarde quando circulou a notícia de que
o 3o regimento iria tomar o
forte de assalto, á noite.
Algumas baterias de canhão de tiro rapido faziam disparos em direcção ao
Tunel Novo, na supposição de que as tropas legaes ali se
encontrassem. O éco formidavel dos disparos de tiro rapido, em
Copacabana, dava a impressào de que o bairro todo estava sendo
arrasado e, dahi, o exodo das familias que foram procurar outros pontos
da cidade. (...)
Ao que sabemos, até á ultima hora o
forte de Copacabana não se havia rendido ainda. Dizia-se que o
commandante propuzera uma rendição com condições, mas que o governo a
recusara. O ataque ao
forte,
por este motivo, fôra resolvido e se realizaria pela madrugada
simultaneamente pelas fortalezas proximas, por navios da esquadra e por
forças do exército." Correio da Manhã, 6 de julho de 1922
|